1944 - Estes eram machos, Tchê!
1944 - Estes eram machos, Tchê!
Escrito por fred,    Qua, 19 de Maio de 2010 17:21


Gre-Nal decisivo em 1944. O Internacional vai ganhando com alguma facilidade: dois a zero. De repente, um colorado machuca. Depois outro, em seguida o terceiro. E aquilo que era uma partida de futebol se torna puro heroísmo.

 Tarde do dia outubro de 1944, um sábado, véspera de decisão do Campeonato de Porto Alegre, entre Grêmio e Internacional. Um Cadillac preto parte do estádio dos Eucaliptos, no bairro Menino Deus, rumo ao bairro Tristeza, para o Sul da cidade. Dentro do carro, vão o presidente do Internacional, Abelard Jacques Noronha, e os jogadores Tesourinha, Nena, Alfeu e Motorzinho. Durante o percurso, vão acertando os últimos detalhes do plano.
Entram na “rua da igreja” e chagam à cada de Carlitos. Carlitos é o ponta-esquerda do Internacional, ídolo, um dos artilheiros do time, e foi operado dos meniscos do joelho direito, há 27 dias. Desde que saiu do hospital, fica em casa repousando. Só vez ou outra é que sai, para pescar uns lambaris no Rio Guaíba, ali perto.
- Carlitos – é Nena, o capitão quem fala num tom amigo mas firme.
- Viemos te buscar para a concentração.
- Mas o que é que eu vou fazer lá? Não vou jogar.
Abelard argumenta que quer ver todos os jogadores juntos. Não quer que falte ninguém nessa hora. Está em jogo o pentacampeonato, e nenhum detalhe deve ser descuidado. Afinal, todos os jogadores são como irmãos.
Os cincos desfiam argumentos ao mesmo tempo. E Tesourinha passa o braço sobre o pescoço de Carlitos.
- Vamos lá, rapaz, tu sabe como pode ser útil só com a tua presença.
Carlitos acaba concordando. Pede licença para ir buscar o pijama e escova de dentes. Quando se afasta, os outros jogadores piscam o olho.
Manhã de domingo. Cai uma chuva fininha. Nesta cidade de 250 mil habitantes, a semana inteira só se falou na decisão do campeonato. No Gre-Nal – o Derby, O Clássico dos Clássicos, O Choque-Rei. Agora, ainda mais.

Nos bairros, enquanto assistem jogos de várzea, antecipados por causa do maior acontecimento esportivo do Estado, torcedores planejam caravanas. No centro da cidade Rua da Praia, estoura um tumulto em frente a loja que vende ingressos. Alguém chama a Polícia de Choque, e o tumulto cresce mais ainda.
O jogo será no Estado da Timbaúva da Foca e Luz, no bairro Caminho do Meio. O Foca e Luz não costumava ganhar campeonatos, mas a Timbaúva é maior do que a Baixada, do Grêmio, e do que o Eucaliptos, do Internacional. Pode receber umas 13 mil pessoas.
Os bondes que vêm do centro, pela avenida Protásio Alves, trazem torcedores pendurados do lado de fora. Quando chegam à rua Alcidez Cruz, a uma quadra do estádio, ficam vazios. A Timbaúva abre ao meio-dia. Meia hora depois duas arquibancadas estão lotadas.
Nota-se que os colorados estão mais nervosos do que os gremistas.
- Se a gente tivesse o Carlitos, dava para ficar mais confiante – comentam alguns.
No estádio dos Eucaliptos, depois do almoço, Tesourinha, Nena, Alfeu e Motorzinho cercam Carlitos ao lado da mesa de bilhar.
- Tu vai jogar - diz-lhe Nena.
Carlitos franze a testa, arregala os olhos.
- Que é isso? Eu fui operado não faz um mês.
- Vai jogar sim – entra Tesourinha com seu sorriso.
- Mas eu estou sem treinar.
Alguns minutos de conversa, e Carlitos acaba convencido.
- Quer saber de uma coisa? Vamos lá.

Os outros jogadores soltam um urro e vão levar a boa nova ao técnico Orlando Cavedine. Às 15h30min, estoura o foguetório. O Grêmio entra em campo. Vem com Júlio, Clarel e Rui, Vinicius, Touguinha e Sanguinetti, Bentevi e Bombachudo, Ramón Castro, Ivo Aguiar e Mário. O técnico, que senta no banco usando terno e gravata, é Telêmaco Frazão de Lima. Logo a seguir, mais foguetes. É o Inter que entra: Ivo, Alfeu e Nena, Assis, Ávila e Abigail formam a defesa. No ataque, a primeira surpresa: Tesourinha, o ponta-direita, vem como meia-direita, sendo escalado o uruguaio Volpi em sua posição. Adãozinho é o centroavante, Motorzinho o meia-esquerda. E, na ponta, a grande surpresa da tarde, que faz a torcida delirar: Carlitos.
As três rádios de Porto Alegre descrevem as cenas. Na cabine da Rádio Gaúcha está Oduvaldo Cozi, que veio à passeio e foi convidado a narrar o jogo. Com sua voz anasalada, Cozzi recorre as palavras poéticas para expressar as emoções que antecedem o grande jogo.
O juiz, o elegante senhor Henrique Maia Failace, o Rei do Apito, ordena o início. Adãozinho passa a Tesourinha, que estica um passe em diagonal a esquerda. Carlitos entra correndo, leva no peito e, da entrada da área, de canhota, acerta o ângulo esquerdo. Vai lá dentro do gol, pega a bola, corre para o centro e coloca-a na marca. A torcida do Inter sacode as arquibancadas fazendo a maior barulheira. Os jogadores do Grêmio, como sua torcida, estão paralisados. Quando vão tocar na bola pela primeira vez, já está 1 a 0.
Mas reagem, tornando o jogo parelho. O Grêmio é um bom time. Tem Júlio, um goleiro que espira confiança; Clarel, beque-central forte, autoritário; Touguinha, centromédio lutador e técnico; Bentevi, um ponta veloz; e, principalmente, Ramón Castro, um centroavante uruguaio de grande classe, exímio cabeceador.

Mas o Internacional é o Rolo-Compressor, o grande time do Estado, com um grande jogador em cada posição. Hoje, os seus maiores destaque estão sendo Tessourinha e Adãozinho. Tessourinha, vindo de trás, ziguezagueia entre os adversários em dribles estonteantes. E Adãozinho, um negrinho atrevido, torna a vida de Clarel um inferno.
Aos 25 minutos, Carlitos se choca com Vinicius e cai gemendo. Sentiu o joelho. Alfeu, Nena e Tessourinha se olham, sérios, com uma certa dor na consciência. Carliros se recusa a sair. Não vai deixar o time com dez. já cumpriu a sua parte, mas acha que tem de ir até o fim. Quando o primeiro tempo termina, é o Grêmio que está pressionando, aproveitando a vantagem.
Aos 8 minutos do segundo tempo, Carlitos encontra forças para bater um escanteio. Júlio responde de soco e a bola cai nos pés de Volpi. É o segundo gol. Agora, vem o baile, apostam os colorados, certos de que o Grêmio está morto. Mas aquela seria, a rigor, a última carga do Internacional sobre o gol do Grêmio. A partir dali, o jogo exigiria muito mais que raça, garra – heroísmo até – do que qualquer outra coisa.
Lodo depois do gol, o lateral-direito Assis se machuca e vai ficar parado na ponta-direita – Volpi vem para o meio e Tesourinha passa para o lugar de Assis. Carlitos anda capengando pela ponta-esquerda. O Internacional recua. O Ataque de resume a Adãozinho.
O Grêmio vem todo para a frente. Aos 22 minutos, Ramón Castro cabeceia, a bola bate na trave. Anos 23, Sanguinetti estica o passe a Bentevi na direita. O cruzamento vem alto, no segundo poste. Ramón Castro, desta vez acerta. A torcida do Grêmio se levanta. Em gritaria, pede a vitória. Confia nela. Afinal, o Grêmio tem tradição de grandes viradas – quantas vezes fez dois, três gols em cinco minutos? Certamente, vai ser fácil agora, que o Internacional tem apenas nove homens úteis.
Pouco depois, Alfeu torce o joelho. São oito homens úteis.

A torcida do Grêmio se agita ainda mais. Lá dentro os jogadores respondem atacando em avalancha. Aos 30, o goleiro Ivo defende um gol certo de Bentevi. Aos 32, Nena desarma Ramón Castro de carrinho, quando o uruguaio ia marcar.
O ataque do Internacional só tem aleijados: Assis, Alfeu e Carlitos. Adãozinho está cá na intermediaria, tentando segurar o jogo. O meia Motorzinho é um beque ao lado de Nena. Ávila, o centromédio, um enorme negro de voz forte, posta-se na meia-lua da área e comanda a resistência dali. Não se cansa de rugir para Volpi.
- Luta, castelhano covarde.
Volpi, muito clássico, muito jovem, tem medo de meter o pé nas divididas. Não é homem para Gre-Nal. Nesta hora, é como se o Internacional estivesse jogando com sete.
E o Grêmio em cima. Touquinha, sem marcação, dá as cartas no meio-de-campo. Os laterais Vinicius e Sanguinetti são atacantes, o cerco é completo. O gol deve sair a qualquer momento. Não é possível que Ivo e seus beques improvisados continuem resistindo por muito tempo.
O jogo vai chegando ao fim. Aos 42, Ivo faz a sua maior defesa, num chute de Bombachudo. Aos 45, depois da cobrança de um escanteio, forma-se o intrevero e Ivo fica fora do lance. Ivo Aguiar tem o gol livre à sua frente e toca. Quando vai gritar gol, um negro se atira esticando a perna, desvia e fica ali, deitado, gemendo, apertando o joelho. Era Alfeu.
O Jogo termina assim. Junto com o alívio, vem a vontade de chorar. E muitos jogadores choram abraçados a Assis, Alfeu e Carlitos – os heróis. Mas a torcida pula o parapeito e acorda os jogadores erguendo-os no ar; o Internacional é petacampeão da cidade.
Em carros abertos, eles são levados até o Estádio dos Eucaliptos bem devagar, cercados pelo povo. Lá durante o Carnaval, aparecem o presidente do Grêmio, Martim Aranha, e o diretor Balbino Ermida, para apresentarem os comprimentos de seu clube. São muito aplaudidos. Os dirigentes do Internacional anunciam o prêmio: três contos de réis para cada jogador.

Enquando o Cadillac preto leva Carlitos de volta, ele vai pensando: “Três conto de réis é a metade de um terreno que tem lá perto de casa. Valeu a pena? Não, não foi por isso que eu concordei em entrar em campo”.
Depois disso, ficou um mês em casa. Curando o joelho.

Retirado de uma edição especial da Placar - Abril de 1979.

 

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